4 de agosto de 2013

Ferramentas agrícolas motorizadas - A motoenxada

No artigo anterior destaquei a importância da motosserra. Neste vou escrever  sobre a motoenxada, outra
 ferramenta motorizada de extrema importância na ajuda em trabalhos agrícolas de pequena dimensão. 

No trabalho que a foto documenta estas duas ferramentas são essenciais.

Adquiri a minha motoenxada em segunda mão, depois de muitos anos a sonhar com um equipamentos desses. Um trator agrícola maior esteve sempre fora de hipótese por motivos de custo e também porque a agricultura que pratico talvez não o justificasse, mas uma pequena motoenxada ou um motocultivador tornaram-se indispensáveis para que o gosto pelo trabalho na terra não esmorecesse. Faço notar que a principal diferença entre as duas máquinas, a motoenxada e o motocultivador, é devida ao facto de, na primeira, as fresas serem colocadas no lugar das rodas e na segunda o sistema de fresas ser ligado diretamente ao um veio do motor. Estes dois sistemas têm vantagens e desvantagens. Na motoenxada as fresas penetram mais profundamente na terra, mas é mais difícil para o operador manobrar a máquina; no motocultivador sucede o contrário: menos profundidade de fresagem, mas maior facilidade de operação. Do equipamento que adquiri faz parte um reboque com rodas de tração, o que torna esta ferramenta flexível e a faz sair da sua função rural, podendo transportar qualquer tipo de produtos ou materiais, em pequena quantidade, sendo no meu caso que me dedico também a pequenos trabalhos de construção civil, duplamente útil.

Para além dos trabalhos agrícolas a máquina equipada com reboque basculante é muito útil
 no transporte de diversos materiais para efetuar pequenos trabalhos de construção.
Era uma máquina que já trazia algum desgaste e até problemas que deveriam ter sido solucionados pelo vendedor antes da sua entrega, mas que o não foram e como não foi dada qualquer garantia ao equipamento, arrisquei eu próprio a reparação mesmo não tendo grandes conhecimentos daquela mecânica específica. Um dos problemas da máquina era o consumo excessivo de óleo do motor, pois tinha que estar constantemente a adicionar óleo para manter o mesmo ao nível desejável. Esse descida do nível do óleo não se devia apenas a um consumo natural do motor como verifiquei alguns dias depois da compra da máquina, mas também a vedantes deteriorados que deixavam verter o lubrificante, o que se tornou bastante óbvio depois de ver o chão onde a máquina ficava estacionada com manchas de óleo.

Máquina equipada com motor Lombardini
 de 359 cm3 e 3600 rpm, conforme consta
 da placa da marca.
A reparação não foi muito difícil e não ficou cara, de modo que aquele contratempo não me chateou muito, o que me aborreceu mesmo foi a atitude do vendedor quando lhe expus o problema e ele não mostrou qualquer vontade em o resolver e para mais fiquei com a sensação de que ele sabia perfeitamente que ele existia quando me vendeu o equipamento. De notar no entanto que o motor continuou a consumir algum óleo, mas dei isso como sendo um facto normal, até porque o motor sempre funcionou muito bem, não aparentando ter qualquer problema de maior.

Nestas máquinas para se abastecer o óleo para o motor tem que se extrair a chapa que se serve de cobertura ou seja o capô (penso que lhe posso chamar assim). Para isso é necessário remover quatro parafusos o que, atendendo às vastas vezes em que era necessário meter óleo se tornava bastante fastidioso, para além da óbvia perda de tempo.

Para resolver esse contratempo havia uma solução que saltava à vista: Não colocar a cobertura no motor, como de resto se vêm muitas máquinas a funcionar por aí, descapotáveis…

Mas para a minha maneira de ser que gosto das coisas bem ordenadas, essa solução não me agradava. Uma outra poderia, talvez, ser a de fazer outro buraco na cobertura por cima da tampa do óleo, tal como tem para o abastecimento de gasóleo, mas depois de analisar o assunto, não me pareceu uma solução muito viável.

Cheguei à conclusão de que não valia a pena fazer mudanças de óleo, dado que o mesmo estava sempre renovado, visto o nível ter de ser reposto amiúdes vezes. Então estar a desapertar e tornar a apertar os quatro parafusos de fixação da tampa, para meter um ou dois decilitros de óleo de cada vez era um incómodo real. Foi então que tive a ideia de arranjar um pedaço de tubo fino que entrasse no orifício da vareta e ligá-lo ao um pequeno funil. Assim é só despejar um pouco de óleo no funil, óleo que vai lentamente introduzir-se no interior do motor, estando de uma forma fácil e bastante lógica o problema resolvido. Ainda em relação a óleos é necessário ter em atenção que estas máquinas têm mais duas caixas onde trabalham maquinismos em banho de óleo e por isso é necessário de vez em quando (não sei qual o tempo exato) mudar esse óleo. No meu caso faço essa troca de óleo cerca de uma vez de dois em dois anos. Uma dessas caixas está no centro do eixo do atrelado e a outra por debaixo do assento do condutor. Para além disso há ainda o filtro de ar que também funciona mergulhado em óleo, o qual eu também costumo mudar na mesma periodicidade. A máquina tem ainda vários pontos para injecção de massa lubrificante que, como é óbvio, estão lá para ser usados e muito importante também é fazer a limpeza do filtro do óleo do motor que se encontra situada na parte direita do bloco do motor.

Semi eixo do reboque. Funciona em banho de óleo. Visível também o sistema de travões.
Claro que tudo isto são pormenores que qualquer proprietário de uma máquina deste género conhece e quem gosta de estimar as suas coisas não pode descurar de modo nenhum a situação em que se encontra o óleo do motor, seja de que tipo de máquina ou veículo for.

Há outras coisas que se fazem nestes equipamentos que se podem considerar menos normais, como por exemplo trocar as jantes originais por outras de automóvel, aumentando a largura do rodado e consequente estabilidade da parte frontal da máquina ou trocar o tanque de combustível de metal por outro em plástico… Eu já fiz essas alterações e considero que foram bem sucedidas, mas também já descrevi essas acções em…"Alterações na motoenxada" pelo que não me vou repetir, no entanto há coisas que não se devem fazer e que eu já fiz e não contei ainda como por exemplo: desmontar a bomba de gasóleo sem perceber nada do assunto. Essa aventura não acabou muito bem, mas ainda poderia ter sido pior. Passo a explicar:

Parte da frente do equipamento. É visível o tanque de combustível adaptado, com o tubo de alimentação
onde foi aplicado um filtro. Nos depósitos originais esse filtro é no interior do mesmo. 
Tinha a impressão que a bomba de gasóleo andava a verter um pouco. Talvez não fosse só impressão, mas não era uma fuga grande, era apenas a bomba um pouco húmida ou molhada, uma coisa insignificante pois o combustível nem sequer pingava para o chão. Como gosto de ver tudo a funcionar em pleno e como ainda me encontrava entusiasmado com o sucesso da substituição dos vedante do óleo do motor, achei que também poderia resolver aquele problema. E o certo é que desmontei e tornei a montar a bomba tendo sobrado apenas uma pequena anilha que não afetou o mecanismo, mas também nada mais fiz porque não vi que lá pudesse fazer algo no componente. Depois de algum apertar e desapertar de parafusos dei por concluído o trabalho que pensava eu, tinha valido apenas pelo facto de ver como é que aquilo era. Nunca poderia imaginar o que sucedeu quando enrolei a corda no volante da turbina para fazer rodar o motor e o colocar em funcionamento.

O motor arrancou à primeira puxadela da corda. De resto é fácil fazê-lo funcionar quando está quente ou pelo menos quando estão temperaturas ambientes de verão, como era o caso. Quando está frio, principalmente no inverno, a situação é inversa e é bastante complicado pô-lo em andamento. Estranhei imediatamente a enorme aceleração do motor e lancei mão do manípulo de controlo para diminuir a aceleração. Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que o motor não obedecia ao acelerador e este parecia até que cada vez aumentava mais as suas rotações. Já saíam grandes faíscas de lume pelo escape e em breve este ir-se-ia incendiar ou destruir-se perante o enorme volume de rotações. Havia que tomar uma decisão rapidamente e resolvi então pegar numa faca e cortar o tubo de alimentação de gasóleo, a solução mais rápida e eficaz para parar o motor imediatamente.

Apercebi-me que fizera asneira grossa e o pior era que senti que não tinha capacidade para a desfazer, pelo que decidi recorrer aos serviços de um mecânico de tratores meu conhecido. O motor teve que ser aberto uma vez que o problema tinha sido causado pela quebra de uma pequena cavilha que faz a ligação da espia do acelerador à bomba, o que provocava que não existisse controlo sobre a saída de gasóleo da bomba. Não era só o equivalente à aceleração máxima permitida pelo mecanismo do acelerador, mas sim o máximo possível e daí o furioso trabalhar do motor que durante alguns segundos parecia que iria explodir.

Quando contei ao mecânico a minha estúpida ousadia em desmontar a bomba de gasóleo sem perceber patavina do assunto ele riu-se e disse: - Nem eu que tenho mais de 40 anos de mecânica gosto muito de mexer neste tipo de componentes, devido à sua complexidade, e vais tu que nunca viste um motor na vida pôr-te a mexer nisto… e resmungou mais qualquer coisa que não percebi…

Depois de algumas horas de trabalho o problema ficou resolvido, mas esta serviu-me de lição e fiquei a pensar para comigo: - Que burro fui… mas quem me mandou a mim que sou sapateiro, tocar rabecão…

Claro que esta lição não serviu para muito tempo porque depressa voltei a entrar em aventuras idênticas a esta, porque sempre senti alguma curiosidade em ver e tentar compreender como é que as coisas funcionam, mas a verdade é que algumas dessas coisas não são compatíveis com a tentativa de descoberta de simples curiosos.

Máquina com as fresas engatadas em substituição das rodas.
É sempre um risco adquirir uma máquina usada e esta como já disse trazia alguns problemas, mas também é necessário ter em atenção que se trata de um equipamento que, na altura, já tinha cerca de 20 anos de serviço. Esses problemas e outros que foram surgindo tenho-os resolvido sem ser necessário recorrer a mecânicos à excepção do caso da bomba de gasóleo, no entanto há um que ainda não consegui sanar, nem recorri a assistência para isso, porque sei que iria ser uma reparação muito cara. Trata-se de uma elevada folga na direção, a máquina está equipada com volante, penso que será necessária uma nova caixa e também já consultei alguns entendidos na matéria que me têm dito para deixar estar que há veículos pesados que andam a circular na estrada ainda com folga maior. O certo é que esse problema torna a condução mais difícil, sobretudo em alcatrão, a maior velocidade, se bem que a velocidade máxima desta motoenxada ronde os 20 km horários, apenas. No entanto é mais fácil conduzir um automóvel a 80 Km hora do que a máquina a 20…

É por isso que é preciso cuidados redobrados a conduzir um veículo deste tipo na estrada, embora não pareça dado o seu andamento lento.

Rodado dianteiro onde estão as cavilhas para controlar a tração dianteira.
Cavilha para cima: desligada. Para os lados: Frente ou Trás.
Esta motoenxada está equipada com caixa de três velocidades mais marcha-atrás, sendo que a 1ª velocidade é extremamente lenta, sendo por isso usada apenas para operar a máquina quando carregada em subidas mais íngremes, ou em caminhos muito difíceis. A máquina é impulsionada pelas engrenagens que transmitem a tração às rodas do reboque, mas tem a grande vantagem da possibilidade de ligar em simultâneo a tracção às rodas da frente, o que evita que as rodas patinem em determinadas circunstâncias, mas essa tração só deve ser usada em casos de necessidade, pois quando a máquina é tracionada pelas quatro rodas torna-se difícil rodar o volante.

Vou concluir, por agora, pois sobre este tipo de equipamentos surge sempre algo mais para dizer e por isso voltarei mais tarde ao tema, mas não vou terminar sem dizer que depois de uma pesquisa sobre os motores Lombardini, marca italiana que equipa a minha motoenxada, vim a descobrir uma história interessante sobre a empresa que a produz e que vou publicar no próximo post. Uma grande parte das motoenxadas e motocultivadores que existem são equipados com motores Lombardini, mas acredito que muitos, talvez mesmo a maioria dos proprietários deste tipo de máquinas não conhecem a história da empresa que os produziu, pelo que poderá ser interessante conhecê-la, não só para os actuais mas também para futuros proprietários de máquinas agrícolas equipadas com motores Lombardini.

Artigo anterior:
A motosserra
Próximo artigo:
História dos motores Lombardini



4 comentários:

  1. muito bem!!! parabéns pelo seu interesse pela mecânica, sou também um entusiasta em desmontar equipamentos e aprender com isso

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    1. Obrigado, Sempre tive um certo fascínio pelo funcionamento das máquinas, especialmente aquelas com que lido no dia-a-dia.

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  2. o meu motocultivador perde óleo pela zona das rodas, desmontei-o e descobri que era as juntas do motor que tem pequenos rasgos, queria saber se alguém sabe como repará-lo sem gastar muito dinheiro?

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    1. Em princípio e a substituição das juntas não será uma reparação muito cara, mas tudo depende de quem fizer o trabalho. Eu já fiz isso na minha moto-enxada e não ficou caro uma vez que não paguei mão-de-obra. Se não puder ou não quiser arriscar a fazer o serviço pelas próprias mãos o melhor será pedir orçamento em duas ou três oficinas, para não ter surpresas.

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