O EDIFÍCIO DA ADMINISTRAÇÃO CENTRAL DA MARINHA

A "Nau de Pedra". Foto da Revista da Armada nº 415 de Janeiro de 2008.
A Administração Central da Marinha encontra-se instalada na área poente da “Zona Monumental do Terreiro do Paço”, num conjunto de edifícios erigido na sequência do terramoto de 1755 e classificado como Monumento Nacional pelo Decreto do Governo nº 136, de 23 de Junho de 1910.

As instalações da Marinha ocupam cerca de três quartos do edifício e são habitualmente distinguidas geograficamente em três grupos: Ala Poente, Ala Central e Ala Leste. A Ala Poente vai desde a ponta sudoeste até ao túnel. A Ala Central é compreendida entre o túnel e a escadaria de pedra de acesso ao 1º andar. Finalmente a Ala Leste estende-se desde as escadarias de pedra até ao extremo sudeste do edifício.

Esta zona de Lisboa; Terreiro do Paço, Rua do Arsenal e Ribeira das Naus, viveu muitos dos grandes acontecimentos que fazem parte da História da cidade e do país, o último dos quais, a revolução de 25 de Abril de 1974, está bem vivo na minha memória, pois ali estive presente nesse dia.

Após a conclusão do 1º Grau de Abastecimento, o adeus a Vila Franca de Xira e uma breve passagem pela Companhia de Adidos, no Alfeite, entrei neste edifício onde iria permanecer durante três anos, exercendo as minhas funções no Conselho Administrativo da Administração Central da Marinha, no 2º piso situado na Ala Leste do edifício.

Estávamos em Janeiro de 1973 e na Ala Poente eram bem visíveis os estragos causados pelo incêndio de Fevereiro de 1969. Penso que a parte sudoeste dessa Ala estava com o seu interior completamente arruinado e por isso inoperacional. Este incêndio destruiu o Instituto Hidrográfico que aqui esteve instalado durante nove anos. Esta não foi a única calamidade a afectar o edifício, pois já anteriormente um outro incêndio, ocorrido em 1916, destruíra a Escola Naval, incluindo a Sala do Risco, situadas na parte norte da Ala Poente do edifício.

Foto da minha autoria, que tirei a partir de uma das janelas do CAACM
 em 1974. No local é bem visível o entulho, proveniente das obras no interior desta parte do edifício. 
Durante a minha passagem de três anos por este local, o edifício esteve quase sempre em obras, pelo menos no rés-do-chão das Alas Central e Leste. Quando aqui cheguei a caserna era um túnel, sem qualquer luz natural e a entrada era no canto a seguir à Capela de S. Roque. Este túnel prolongava-se para sul terminando entre a Casa da Balança e a parte sudeste do edifício. Entretanto, durante o tempo em que lá estive, este local sofreu uma intervenção muito grande e nos últimos meses da minha estada aqui a caserna, o bar e outras instalações foram remodeladas ficando com muito melhores condições. Na caserna foi aplicado um sistema de ventilação que, não obstante a melhoria que trouxe no tocante à renovação do ar, tinha o inconveniente de fazer bastante ruído a funcionar e também de, às vezes, não ser regulado convenientemente, provocando aquecimento em demasia.

Na parte sudeste do edifício estava instalado um supermercado que servia os funcionários civis e militares que ali trabalhavam e penso que também o pessoal de outras Unidades da Marinha que lá quisessem ir fazer as suas compras. Eu raramente lá ia, no entanto lembro-me de ter lá ido comprar bacalhau, para levar para a terra, na altura da grande “crise do bacalhau” nos meses que se seguiram à revolução de Abril.

Como já disse, o meu local de trabalho, o CAACM, ficava no 2º andar da Ala Leste do edifício. A entrada para lá, era pela escadaria de pedra que se situava a seguir à Casa da Balança. Lembro-me de, no caminho para o CAACM, passar junto ao Centro de Comunicações da Armada, que penso que funcionava no 1º andar, mas não tenho a certeza. Este organismo ocupava uma área bastante grande do edifício e ali trabalhavam muitos funcionários civis e militares. Eu exercia funções de arquivista numa repartição na parte sudeste que tinha duas janelas que davam para a parada e Av. Ribeira das Naus, mas também tinha períodos de tempo em que trabalhava noutro local a dactilografar documentos junto com alguns camaradas da classe de fuzileiros que tinham frequentado um curso de dactilografia.

Foto de Julho de 2009, captada a partir do portão da Av. Ribeira das Naus. Vê-se o túnel para a Rua do Arsenal e a entrada para o antigo refeitório das praças, na 2ª porta à esquerda do túnel.
A cozinha e o refeitório das praças funcionavam na Ala Poente, muito próximo da velha palmeira plantada por um grupo de operários arsenalistas em 1915. A entrada era pela 2ª porta mais larga a seguir ao túnel, para o lado esquerdo. Quando terminei o serviço em Janeiro de 1976, a parte do edifício que tinha sido destruída pelo incêndio de 1969 estava em obras e ali iria funcionar a nova messe que seria comum a oficiais, sargentos e praças, segundo se dizia. Penso que a inauguração estava para breve e por pouco não cheguei a conhecer as novas instalações. Nesta Ala estava instalada também a Casa do Militar da Armada, mas a entrada para lá era pelo exterior, pela Rua do Arsenal.

Também, já depois da minha saída, houve alterações no exterior, na parada, ou parque de estacionamento ou ainda no “convés da Nau” como também era designada esta área, uma expressão carregada de simbolismo naval. Aliás o edifício era, e penso que ainda será, conhecido entre os marinheiros como a “Nau de Pedra”, devido sem dúvida à sua ligação através dos tempos, à Marinha e à construção naval, pois aqui funcionou durante alguns séculos o Arsenal da Marinha, que foi transferido para o Alfeite na quarta década do século XX.

O antigo Arsenal da Marinha.
Actualmente está a descoberto, no “convés da Nau”, a poente, uma parte da antiga doca seca do arsenal que se encontrava soterrada aquando da minha passagem por aqui. No canto sudoeste, junto ao muro que fazia a separação da área com a Av. Ribeira das Naus, havia um posto de sentinela e uns bancos em cimento encostados ao muro, um local que era sombreado com algumas árvores. O muro de betão também foi entretanto substituído por uma vedação com frestas que permitem ver do exterior o “convés da Nau”.

Fontes consultadas:
Revista da Armada nº 415, de Janeiro de 2008.
Revista da Armada nº 46, de Julho de 1975.

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Comentários

  1. Camarada José Alexandre,descreveste o antigo Ministério da Marinha tal qual o conheci.
    Quando do incêndio no Instituto Hidrográfico,eu prestava serviço no Centro de comunicações da Armada, e para aceder ao mesmo tinha de subir ao 1.º andar e no final do corredor descer ao r/c interior, o Centro de Comunicações da Armada na altura tinha uma porta de emergência que se dizia que pela mesmo se acederia á garagem dos Correios Centrais no Terreiro do Paço,na Cave estava o serviço de cripto e a sala de operações com um mapa desenhado sobre uma enorme mesa,muitas miniaturas de navios,tal qual nós vemos em filmes.No dia em que prestavamos serviço dormiamos na caserna do Centro de Comunicações,mas para aceder ao serviço no Centro de Comunicações tinhamos um cartão de identificação individual com foto e assinado pelo Chefe de Serviço, com que nos identificavamos perante o Fuzileiro que se encontrava armado junto á porta.
    Moleiro

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  2. Camarada e amigo António Moleiro:
    Obrigado pelo teu testemunho que vem enriquecer esta postagem.
    Eu, de facto, lembro-me de no percurso que fazia para o CAACM, passar junto à porta do CCA, que se encontrava sempre fechada. Não sei se alguma vez lá entrei, penso que não, pois tratava-se de um Serviço reservado.
    Um abraço.
    José Alexandre.

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