CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL DE UMA PEQUENA CHÁCARA

A pedra de xisto foi um dos materiais mais utilizados
nas construções da chácara.
A base de uma economia familiar sustentável é, sem qualquer sombra de dúvida, o trabalho. Numa época em que é muito difícil encontrar um emprego estável, ou mesmo qualquer tipo de trabalho por conta de um patrão e ainda mais difícil conseguir uma remuneração justa que permita alguma autossuficiência económica, a agricultura pode ser uma ajuda não só para obter alguns produtos para a cozinha de casa, mas também uma contribuição importante para a estabilidade emocional e para uma vida mais saudável em todos os aspetos.

“Eu chorava porque não tinha sapatos, até que um dia encontrei um homem que não tinha pés”.

Um dia, em criança, li esta frase num livro ou num jornal, disso já não me lembro muito bem, mas as palavras, essas, nunca as esqueci. No meu entendimento elas significam que não adianta estarmos a lamentarmo-nos da nossa pouca sorte, quando existem outros que estão muito pior do que nós. Por isso há que seguir em frente tentando multiplicar o pouco que temos, mas para isso é necessário despirmo-nos de preconceitos e usar um pouco de imaginação.

Para ter a nossa horta onde possamos plantar as nossas couves, semear as nossas batatas, os feijões ou qualquer outro produto agrícola que queiramos é necessário ter um terreno com água e um pequeno edifício de apoio, um barracão e, eventualmente, um galinheiro e currais. E convém também fazer a vedação do terreno para, pelo menos, impedir a entrada de cães, ou até, em algumas zonas, de veados e javalis.

Tudo isto se pode fazer com muito trabalho, mas sem grandes custos. O problema maior é o terreno, porque o resto consegue-se desde que não tenhamos problemas em espreitar numa lixeira, num contentor ou num aterro qualquer, para ver se existem por lá restos de material deitados fora que se possam aproveitar. De certeza que se vão encontrar telhas ainda em bom estado, tijolos, madeira, pedaços de ferro, etc. Não se consegue encontrar tudo, alguma coisa terá de ser comprada, mas o mais importante e o que seria mais caro é a mão-de-obra e essa temo-la de graça, porque seremos nós a fornecê-la. Ora aí está a importância do trabalho para a sustentabilidade!

O leitor que teve a paciência de chegar até aqui poderá, talvez, estar a fazer a si próprio a seguinte pergunta:

"- Mas, que autoridade é que é que este tipo tem para estar para aqui a falar em trabalho e a dar opiniões sobre assuntos destes?..."

Construção de um passadiço em pedra.
A minha resposta a essa hipotética pergunta é que eu não estaria a escrever este artigo, pelo menos nestes moldes, se não tivesse eu próprio já feito o que aqui aponto como um possível solução para ajudar à sustentabilidade económica. Já aproveitei materiais de construção que encontrei no lixo, para as minhas pequenas obras, já retirei de rios, com grande esforço, areias e cascalho, já andei nas serras à procura de pedras.

O projeto a que me estou a referir já foi descrito num outro artigo deste blog. Esse projeto, “a minha chácara”, começou há doze anos atrás e tem vindo a crescer lentamente, de acordo com as possibilidades. É uma obra pequenina, mas da qual me orgulho muito, não só pelo trabalho realizado, mas também devido ao facto de muitos dos materiais que utilizei, depois de terem sido por outros considerados como inúteis, lhes dei nova vida, podendo dizer que é uma chácara construída, em parte, com materiais reciclados.

O terreno onde implantei a minha chácara tem apenas uma área de, aproximadamente,  800 m2., Este terreno, onde apenas existiam algumas oliveiras, já estava invadido por silvas e arbustos infestantes, porque já há muitos anos não era cultivado. Naturalmente, comecei por fazer a limpeza do terreno, usando como ferramentas apenas uma enxada e uma foice, porque nessa altura as roçadoras mecânicas ainda eram um luxo inacessível para mim. Estávamos na primavera e o terreno foi lavrado de seguida, tendo depois semeado lá batatas, sementeira essa que iria contribuir para a limpeza da propriedade, porque as batatas iriam obrigar, para o seu arranque, a que a terra fosse cavada em pleno verão, o que daria origem à secagem e eliminação das ervas ruins de que ela estava infestada.

Um aspeto da chácara no início da primavera.
Nessa altura ainda não tinha planos definidos sobre o que iria ali fazer. Pensava na construção de um barracão e de um poço, mas tive a ideia de, no imediato, plantar lá algumas árvores de fruto. Num projeto agrícola de ajuda à autossuficiência, esse tipo de árvores é indispensável e, então, procedi à plantação no meio do batatal, de cerca de trinta fruteiras de diversas espécies e também de uma palmeira. Curiosamente essa palmeira também pode ser considerada como uma “árvore reciclada”, uma vez que foi recolhida por mim, numa lixeira, quando estava quase seca, mas que, felizmente, recuperou e hoje é uma bonita e saudável árvore, que dá um ar tropical à minha chácara.

Antes de semear o batatal já tinha reservado um espaço para construir um pequeno barracão, mas para o erguer necessitava de lá ter alguma pedra, madeira, etc., tendo dado então início à saga da procura de materiais em aterros e lixeiras, rotulados, portanto, como inúteis. Para este barracão consegui encontrar para além de pedras e madeira, também telhas, daquelas velhinhas, que eram conhecidas na região como telhas serranas.

Terminado o pequeno barracão que era, aliás, a construção mais urgente no imediato, pois iria servir para guardar algumas ferramentas e servir de abrigo; um outro projeto, um poço ou um furo artesiano, se impunha realizar com brevidade, pois o verão não tardava e iria necessitar de água para regar as árvores. Quanto às batatas acreditava que ainda choveria o suficiente e que não necessitariam de ser regadas  

Essa ideia do furo artesiano era ótima, mas eu intimamente sempre suspeitei que não passava de uma quimera, pois ela comportava custos que não tinha possibilidades de suportar e tive de optar por outras soluções muito mais económicas. Já tinha um pequeno edifício com um telhado. Esse telhado tinha apenas cerca de 10 m2 de área, mas já era um princípio. Com uma caleira feita de madeira e um bidão de 200 litros dei início ao sistema de aproveitamento de águas pluviais da minha chácara…

Esse bidão encheu rapidamente logo após a primeira chuvada, não sendo difícil adivinhar que durante um inverno, com aquele telhado e mais alguns que viesse a construir, poderia armazenar uma grande quantidade de água para utilizar nas regas de verão.

Construção do reservatório para as águas da chuva.
Decidi então iniciar a construção de um tanque, de forma retangular, que iria servir de depósito de retenção de águas pluviais para serem utilizadas nas regas. Para a construção deste tanque tive a necessidade de comprar blocos, ferro e cimento, porque dadas as caraterísticas de uma obra desta natureza é forçoso utilizar bons materiais. As paredes têm que ser reforçadas com pilares, cintas, com um reboco impermeável e, evidentemente, tudo isto tem que ser assente em cima de um bom alicerce.

Quando acabei a construção do tanque, iniciei imediatamente a construção de mais um barracão e um telheiro, obras de que tinha necessidade, mantendo a norma da reciclagem de materiais, isto é, aplicando sempre que possível os tais materiais “inúteis”. Os telhados destas construções iriam ter a dupla função de cobertura e de abastecer o tanque com as águas da chuva.

Não demorei muito tempo a verificar que tinha cometido um erro na construção do tanque. Não um erro na construção propriamente dita, mas no seu dimensionamento, pois este reservatório que, inicialmente, tinha capacidade para 6.000 litros de água, encheu em muito pouco tempo, logo nos primeiros meses de Outono, pelo que verifiquei que o deveria ter feito com muito mais capacidade.

Para tentar colmatar esta falha, resolvi fazer outro depósito, mais pequeno, com capacidade de cerca de 4.000 litros, mas como não há duas sem três, ainda fiz um terceiro depósito, este construído em pedra de forma redonda com um aspecto rústico, com a finalidade de embelezar o local.

O tanque repleto de água.
Mas, como a água é essencial para o sucesso dum empreendimento desta natureza e, como ainda não conseguia o armazenamento que permitisse a autossuficiência do precioso líquido durante o verão, decidi aumentar a capacidade do primeiro tanque que construí, podendo a partir de então fazer o armazenamento de cerca de 20.000 litros de água, que têm sido suficientes para as necessidades da chácara, em anos de pluviosidade normal.

Hesitei um pouco sobre a melhor maneira de aumentar a capacidade de armazenamento de água, tendo pensado em fazer um novo depósito, mas depois de analisar bem todos os pormenores do projecto, achei que já eram depósitos a mais, tendo decidido aumentar as dimensões do primeiro tanque, porque além de minimizar os custos em material, poupava também na mão-de-obra e evitava a ocupação de mais terreno. Claro que parar obter sucesso numa intervenção destas no tanque tive que operar com o máximo cuidado na ligação das paredes, pois, numa obra deste tipo, qualquer fenda que surja pode originar fugas de água, que depois são difíceis de eliminar. No entanto obtive aqui sucesso absoluto, pois a intervenção neste tanque ocorreu no verão de 2008 e nunca, até hoje, notei qualquer perda de água.

Este tanque recebe todas as águas dos telhados da chácara e possui, na sua parte superior, um tubo com a finalidade de transportar a água para outro depósito quando esta se encontra ao seu nível mais alto, ou, por outras palavras, quando o tanque está cheio, após o que estando o segundo depósito também repleto, segue para um pequeno lago que fiz para os patos da chácara nadarem e também para ajudar à captação de águas. Este lago tem um sistema de esgoto que permite fazer a sua lavagem e aproveitar toda a água para regas, pois daqui segue um tubo para um pequeno poço, feito propositadamente para o aproveitamento dessa água.

No fundo do tanque principal coloquei uma torneira de uma polegada, à qual costumo ligar uma pequena moto bomba que, sem grande esforço, consegue pressão suficiente para que através de uma mangueira faça a rega das árvores e de todos os produtos agrícolas da chácara.

Poço de pedra. Ao lado está o pequeno reservatório que
recebe as águas da lavagem do lago dos patos.
Apesar de tudo não posso fazer uma exploração agrícola muito intensa do terreno nos meses de verão, pois se o fizesse a água seria insuficiente. O uso de águas pluviais para regas está sempre limitado à capacidade dos depósitos de armazenamento e a construção de grandes reservatórios parece uma opção difícil de tomar, em terrenos que permitam a exploração de água subterrânea, através de um furo ou de um poço. No entanto, pode ser uma ótima solução em locais onde não existe água, ou esta se encontra muito profunda no solo.

E, de resto, um sistema de aproveitamento de águas pluviais é muito simples de fazer. Basta canalizar através de caleiras e tubos as águas dos telhados para um reservatório. No caso de não haver telhados terá que se arranjar outra solução para a sua captação, podendo a construção de um tanque com uma maior área quadrada ser uma solução, que teria o inconveniente de uma maior exposição solar que iria provocar a evaporação da água em maior quantidade no verão, mas também esse inconveniente poderia ser minimizado colocando uma cobertura no reservatório.

A maior dificuldade pode ser a construção do depósito que, para quem tiver alguns conhecimentos do ramo, também não é difícil. Convém fazer uma construção segura, de acordo com as suas dimensões, para não haver perigo de fugas de água. Existem muitas formas de se construir um tanque, obra que, na sua maioria, é feita em betão armado. No caso da construção com blocos de cimento, as paredes terão de ser bem travadas, com pilares e vigas em betão. O reboco das paredes na parte interna deve ser feito com uma boa argamassa de areia e cimento, devendo estas ser afagadas com lasso de cimento (cimento amassado com água), com o reboco ainda fresco.

Para além dos reservatórios e dos barracões, a que já fiz referência, construí também na chácara uma pequeno edifício em pedra, uma construção de melhor qualidade do que os barracões, inacessível a ratos, que serve para guardar diversos produtos da terra, sementes, ferramentas, etc.

Construção pensada inicialmente para um moinho de vento,
mas que acabou por servir de suporte a um gerador eólico.
Com a finalidade de embelezar o local, para além do pequeno poço de pedra de que já falei, construí também a imitação de um pequeno moinho de vento, o que veio aumentar a aparência rústica do local. Mais tarde esta construção serviu de apoio a um pequeno gerador eólico, cuja turbina faz rodar um dínamo de bicicleta que acende uma lâmpada e que poderia, eventualmente, servir para carregar baterias, mas dada a fragilidade do gerador, essa finalidade parece um pouco improvável, tratando-se, no entanto, de um bom equipamento para fazer experiências didáticas.

Por falar em gerador não posso deixar de mencionar o gerador eólico com alternador de automóvel que também aqui construí e que implantei no telhado da casa de pedra.

Para além destes engenhos de vento artesanais construí na chácara duas outras máquinas, também muito rústicas, mas que considero de bastante utilidade. Trata-se de um gerador de energia e de um triturador de cerais, ambos movidos através de uma bicicleta. Qualquer delas funciona muito bem e, naturalmente, são completamente ecológicas, uma vez que funcionam a energia muscular, com a vantagem para a saúde que advém do exercício físico.

Este projeto foi iniciado em 2005 e já, por várias vezes, o tentei dar por concluído, mas novas ideias foram surgindo e com elas novas coisas têm sido criadas, agora mais devagar, porque chegou o tempo de desfrutar do trabalho realizado.

Atualização em 18/O7/2015:

Após a publicação deste post, o projeto "A minha chácara" continuou em evolução e nova ideias foram postas em prática, das quais destaco a construção de duas bombas de corda, uma manual e outra movida a vento e também uma pequena cabana de troncos semelhante às cabanas construídas pelos colonos do oeste americano. 

Atualização em 30/03/2016: 

Este artigo foi atualizado em Março de 2016, com novos dados em: Como construir uma pequenina chácara, sustentável e barata.


Vídeo sobre a chácara





Comentários

  1. Parabéns pelos trabalhos e pela iniciativa de publica-los.

    Abraços

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  2. Muito bom, só uma duvida! Com o dinheiro gasto nesses tanques todos não tinha construído um poço?

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    1. Os tanques não ficaram muito caros porque não paguei mão de obra, mas, sim, sem dúvida que seria muito melhor um poço, no entanto gastaria muito mais.

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    2. Muito bom, Parabens mesmo, gostei das ideias, vou usar este método de reservatório na minha chácara p não precisar fazer poço artesiano.

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    3. Muito bom, parabéns msm, gostei da idéia, vou fazer este reservatório em minha chácara p/ não precisar de poço artesiano, mas vou usar caixas d'agua grandes.

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    4. Obrigado pelo comentário. Se tiver possibilidades de fazer um furo artesiano ou um poço, será muito melhor. Quanto o mim o aproveitamento de águas da chuva só se justifica quando não há água no terreno ou esta fica muito profunda. Por muito grandes que sejam as caixas irá ter sempre carência de água nos períodos prolongados de ausência de chuva.

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